O luto e a rede, ou “estamos aqui se precisarem”

Essa coisa de redes sociais é mesmo muito louca. Redes sociais não, de facebook, para dar nome aos bois. E não estou falando de discussão política ou disseminação de ódio do grupo x vs grupo y. Não dessa vez, apesar de estar tudo ligado.

Estou falando de como é maluco quando o facebook, por conta de conexões (amigos em comum, afinidades profissionais etc) com gente que nunca vimos em carne e osso, nos joga nas entranhas da vida alheia sem rede ou, como está na moda dizer, sem filtro.

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Há alguns dias, uma tragédia abalou um grupo de pessoas muito próximo a mim. Próximo, de novo, por afinidades profissionais e casualidades, não por convivência. A morte precoce e inexplicável de uma criança criou uma rede de solidariedade virtual em torno dos pais, avós e amigos, com centenas de pessoas que nunca se encontraram pessoalmente escrevendo mensagens de apoio e carinho, tentando dividir um pouco da angústia e do desespero que vêm junto com essas rasteiras que a vida dá.

Eu não entendo dos conceitos psicológicos envolvidos no processo de luto, mas conheço bem a realidade do luto em si. Quando perdi meu pai, em 2009, o facebook já existia, mas não tinha nem sombra do papel que iria desempenhar na vida da gente. Ou seja, contei com as palavras e presenças físicas das pessoas mais próximas. Dois anos depois, escrevi e compartilhei um texto falando sobre minha relação com ele, e recebi uma enxurrada de palavras carinhosas de gente que eu via pouco ou nunca. E, ao longo dos anos, me acostumei a postar, sem saber bem porque estava fazendo isso, pequenas homenagens em seu aniversário ou no dia de sua morte.

Com a comoção causada pelo falecimento da criança que cito acima, comecei a perceber o óbvio ululante: o facebook não é só uma parte fundamental de nossas vidas, mas ele transformou completamente nossa forma de sociabilizar com outros seres humanos.

Exagero? Acredito que não. Basta ver o quanto as postagens, comentários e informações disseminadas dominam nossas conversas presenciais. Passamos a “conhecer” (e julgar) as pessoas por meio de suas atitudes, posicionamentos e fotos na rede – conhecer, claro, entre muitas aspas, já que o conceito de vida editada está tão batido que nem vale a pena comentar. É assustador perceber que, todas as noites, quando encontro meu marido, nossas conversas recaem, inevitavelmente, sobre o  assunto ou post “do dia”. Isso me parece ainda mais chocante do que ver em todos os cantos pessoas eternamente vidradas em seus smartphones, completamente alheias ao que se passa ao redor, no mundo dito real.

Ou seja, toda a nossa socialização está mediada pela rede. E é impossível que, estando no olho do furacão, a gente consiga ter uma ideia real do que isso significa. Uma coisa é fato, a rede social não vai acabar ou sair de moda, vai no máximo se moldar às novas necessidades criadas por ela mesma e por nós, seus usuários. Nossa forma de nos relacionar foi modificada para sempre, e de maneira muito rápida.

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Não se trata absolutamente de julgar as atitudes de quem perde gente querida, sobretudo filhos. Volta e meia sinto necessidade de “compartilhar” com os meus 1500 “amigos” de rede (entre eles devo realmente conhecer bem menos da metade, e conviver com, no máximo, uns 200) palavras sobre meu pai – e olha que lá se vão sete anos. Entendo que qualquer coisa que faça esses pais se sentirem um pouco mais amparados num momento quase insuportável é válido e deve ser feito.

O que me causa espécie é, de novo, a mediação. E a certeza de que, por mais que a rede nos traga uma sensação de amparo por atingir uma quantidade muito maior de pessoas, vai haver aqueles momentos em que todas essas mensagens não serão suficientes, por dois motivos. Primeiro, porque ainda precisamos do toque, do olhar e da presença física. E segundo, porque tem horas em que nada nem ninguém será capaz de, mesmo com as palavras mais doces, aplacar a raiva quase enlouquecedora, a incompreensão, o grito e o choro presos na garganta, e a sensação de incompletude eterna que uma perda traz.

No dia a dia, no tocar a vida nas pequenas coisas, na hora em que os outros tomam seus rumos e resta a quem ficou administrar o buraco, não há mediação possível. Não há likes e corações virtuais que deem conta. Não há mensagens de luz que cheguem. Talvez, a gente esteja caminhando em direção a um mundo em que uma mensagem de facebook sobre o falecimento de alguém pareça suficiente para expressar o pesar de quem escreve. E o compartilhamento de um texto sobre o ente querido, seguido de curtidas e comentários, encha mais o coração do que um abraço. Essa talvez seja a nossa nova forma de socialização, inclusive para aqueles momentos em que a presença física parecia até então fundamental.

Mais uma vez, já que o exemplo exige delicadeza, não se trata de problematizar a situação em si, mas de refletir sobre o papel da rede social em momentos de perda  – ou o luto na era das redes sociais. A necessidade de expor a situação e os sentimentos em postagens para conhecidos e desconhecidos mostra que a rede virou nosso verdadeiro espaço de existência e interação. É por meio dela que quem perdeu aprende a lidar com a perda  – e é por meio dela que os outros entram em contato com o sentimento, com o sofrimento e, de certa forma, dividem e também aprendem com a experiência alheia.

É a possibilidade de entrar sem filtro na vida do outro, seja por curiosidade mórbida ou por solidariedade genuína. Já que não podemos sair gritando por aí, e a possibilidade de convivência real se torna cada vez mais remota, pelas mais diversas circunstâncias da chamada vida moderna, a rede social preenche essas lacunas. Ou promete preencher.

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Por fim, uma observação: nunca é fácil estar ao lado de quem sofreu uma grande perda. Estar realmente perto e disponível é para poucos. Há, basicamente, três tipos de posturas: 1. as promessas que nunca se concretizarão (vamos nos ver sempre, vamos te acolher e tal); 2. a presença real, que não mede esforços; e a clássica 3.”estou aqui, se precisar chama”. Uma dica: vamos abolir o “se precisa chama”, seja dito ou postado? Ninguém que está passando por um processo de luto vai chamar, por inúmeras razões: por vergonha, para não incomodar, por não se sentir à vontade, ou mesmo por falta de forças e iniciativa.

Chega uma hora em que você simplesmente acha que já pesou demais na vida das pessoas e que precisa carregar o chumbo sozinho. Mas ao mesmo tempo, às vezes a coisa é pesada demais, e é preciso dividir. E o enlutado, que já se sente um sacaneado pela vida, vai se ver jogado às traças do próprio sofrimento. “Se precisar chama” é a senha de quem não quer chegar perto, mas não tem coragem de assumir isso para si. Sei que as pessoas não falam por mal, e muitas vezes agem dessa forma por não saber o que dizer. Tampouco é obrigação ter a disponibilidade emocional para viver, mesmo em partes, a perda do outro. Mas, nessas horas, é sempre melhor não alardear aquilo que não se tem a intenção de fazer. Se você puder, quiser, e estiver em condições: chega junto. E, de preferência, de forma presencial.

 

 

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