O luto e a rede, ou “estamos aqui se precisarem”

Essa coisa de redes sociais é mesmo muito louca. Redes sociais não, de facebook, para dar nome aos bois. E não estou falando de discussão política ou disseminação de ódio do grupo x vs grupo y. Não dessa vez, apesar de estar tudo ligado.

Estou falando de como é maluco quando o facebook, por conta de conexões (amigos em comum, afinidades profissionais etc) com gente que nunca vimos em carne e osso, nos joga nas entranhas da vida alheia sem rede ou, como está na moda dizer, sem filtro.

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Há alguns dias, uma tragédia abalou um grupo de pessoas muito próximo a mim. Próximo, de novo, por afinidades profissionais e casualidades, não por convivência. A morte precoce e inexplicável de uma criança criou uma rede de solidariedade virtual em torno dos pais, avós e amigos, com centenas de pessoas que nunca se encontraram pessoalmente escrevendo mensagens de apoio e carinho, tentando dividir um pouco da angústia e do desespero que vêm junto com essas rasteiras que a vida dá.

Eu não entendo dos conceitos psicológicos envolvidos no processo de luto, mas conheço bem a realidade do luto em si. Quando perdi meu pai, em 2009, o facebook já existia, mas não tinha nem sombra do papel que iria desempenhar na vida da gente. Ou seja, contei com as palavras e presenças físicas das pessoas mais próximas. Dois anos depois, escrevi e compartilhei um texto falando sobre minha relação com ele, e recebi uma enxurrada de palavras carinhosas de gente que eu via pouco ou nunca. E, ao longo dos anos, me acostumei a postar, sem saber bem porque estava fazendo isso, pequenas homenagens em seu aniversário ou no dia de sua morte.

Com a comoção causada pelo falecimento da criança que cito acima, comecei a perceber o óbvio ululante: o facebook não é só uma parte fundamental de nossas vidas, mas ele transformou completamente nossa forma de sociabilizar com outros seres humanos.

Exagero? Acredito que não. Basta ver o quanto as postagens, comentários e informações disseminadas dominam nossas conversas presenciais. Passamos a “conhecer” (e julgar) as pessoas por meio de suas atitudes, posicionamentos e fotos na rede – conhecer, claro, entre muitas aspas, já que o conceito de vida editada está tão batido que nem vale a pena comentar. É assustador perceber que, todas as noites, quando encontro meu marido, nossas conversas recaem, inevitavelmente, sobre o  assunto ou post “do dia”. Isso me parece ainda mais chocante do que ver em todos os cantos pessoas eternamente vidradas em seus smartphones, completamente alheias ao que se passa ao redor, no mundo dito real.

Ou seja, toda a nossa socialização está mediada pela rede. E é impossível que, estando no olho do furacão, a gente consiga ter uma ideia real do que isso significa. Uma coisa é fato, a rede social não vai acabar ou sair de moda, vai no máximo se moldar às novas necessidades criadas por ela mesma e por nós, seus usuários. Nossa forma de nos relacionar foi modificada para sempre, e de maneira muito rápida.

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Não se trata absolutamente de julgar as atitudes de quem perde gente querida, sobretudo filhos. Volta e meia sinto necessidade de “compartilhar” com os meus 1500 “amigos” de rede (entre eles devo realmente conhecer bem menos da metade, e conviver com, no máximo, uns 200) palavras sobre meu pai – e olha que lá se vão sete anos. Entendo que qualquer coisa que faça esses pais se sentirem um pouco mais amparados num momento quase insuportável é válido e deve ser feito.

O que me causa espécie é, de novo, a mediação. E a certeza de que, por mais que a rede nos traga uma sensação de amparo por atingir uma quantidade muito maior de pessoas, vai haver aqueles momentos em que todas essas mensagens não serão suficientes, por dois motivos. Primeiro, porque ainda precisamos do toque, do olhar e da presença física. E segundo, porque tem horas em que nada nem ninguém será capaz de, mesmo com as palavras mais doces, aplacar a raiva quase enlouquecedora, a incompreensão, o grito e o choro presos na garganta, e a sensação de incompletude eterna que uma perda traz.

No dia a dia, no tocar a vida nas pequenas coisas, na hora em que os outros tomam seus rumos e resta a quem ficou administrar o buraco, não há mediação possível. Não há likes e corações virtuais que deem conta. Não há mensagens de luz que cheguem. Talvez, a gente esteja caminhando em direção a um mundo em que uma mensagem de facebook sobre o falecimento de alguém pareça suficiente para expressar o pesar de quem escreve. E o compartilhamento de um texto sobre o ente querido, seguido de curtidas e comentários, encha mais o coração do que um abraço. Essa talvez seja a nossa nova forma de socialização, inclusive para aqueles momentos em que a presença física parecia até então fundamental.

Mais uma vez, já que o exemplo exige delicadeza, não se trata de problematizar a situação em si, mas de refletir sobre o papel da rede social em momentos de perda  – ou o luto na era das redes sociais. A necessidade de expor a situação e os sentimentos em postagens para conhecidos e desconhecidos mostra que a rede virou nosso verdadeiro espaço de existência e interação. É por meio dela que quem perdeu aprende a lidar com a perda  – e é por meio dela que os outros entram em contato com o sentimento, com o sofrimento e, de certa forma, dividem e também aprendem com a experiência alheia.

É a possibilidade de entrar sem filtro na vida do outro, seja por curiosidade mórbida ou por solidariedade genuína. Já que não podemos sair gritando por aí, e a possibilidade de convivência real se torna cada vez mais remota, pelas mais diversas circunstâncias da chamada vida moderna, a rede social preenche essas lacunas. Ou promete preencher.

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Por fim, uma observação: nunca é fácil estar ao lado de quem sofreu uma grande perda. Estar realmente perto e disponível é para poucos. Há, basicamente, três tipos de posturas: 1. as promessas que nunca se concretizarão (vamos nos ver sempre, vamos te acolher e tal); 2. a presença real, que não mede esforços; e a clássica 3.”estou aqui, se precisar chama”. Uma dica: vamos abolir o “se precisa chama”, seja dito ou postado? Ninguém que está passando por um processo de luto vai chamar, por inúmeras razões: por vergonha, para não incomodar, por não se sentir à vontade, ou mesmo por falta de forças e iniciativa.

Chega uma hora em que você simplesmente acha que já pesou demais na vida das pessoas e que precisa carregar o chumbo sozinho. Mas ao mesmo tempo, às vezes a coisa é pesada demais, e é preciso dividir. E o enlutado, que já se sente um sacaneado pela vida, vai se ver jogado às traças do próprio sofrimento. “Se precisar chama” é a senha de quem não quer chegar perto, mas não tem coragem de assumir isso para si. Sei que as pessoas não falam por mal, e muitas vezes agem dessa forma por não saber o que dizer. Tampouco é obrigação ter a disponibilidade emocional para viver, mesmo em partes, a perda do outro. Mas, nessas horas, é sempre melhor não alardear aquilo que não se tem a intenção de fazer. Se você puder, quiser, e estiver em condições: chega junto. E, de preferência, de forma presencial.

 

 

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O mundo e os marcadores

Muito se diz por aí sobre a tal geração Y (nem sei se o termo ainda está na moda), mas vá lá: aqueles jovens que foram criados por pais e mães esforçados que, na ânsia de livrar seus pimpolhos de toda e qualquer gota de sofrência deram tudo, adularam um monte, cobraram quase nada e, talvez pior do que tudo isso, fizeram os coitadinhos  acreditar que são grandes merecedores de felicidade e satisfação infinitas, não importa o que façam ou como ajam.

São pais capazes de reclamar de nota com professor de faculdade e, no limite, de dizer à polícia que a culpa foi toda daquele pedestre que estava – céus, onde já se viu – atravessando a rua na faixa de madrugada, quando todos sabem que não é seguro parar naquele cruzamento.

Mas, para ficar entre as situações corriqueiras e menos dramáticas, a grande consequência disso tudo é um bando de adultos infantilizados, acriançados, que não têm a menor vergonha de demonstrar isso por aí e impor seus desejos para quem quer que seja. Sei lá, mas na minha época era mais bonito ser grande. Aos 18 anos tudo o que você queria era ser tratado como ser pensante, independente, parar de pedir dinheiro aos pais e não dizer mais aonde ia. Na faculdade, era natural resolver os próprios problemas, e não me lembro de ter visto um pai ou mãe andando atrás de professor nos seis anos em que passei na PUC. Hoje tem, podiscrê!

Bem, não sei o quanto essa adultice toda também não era sinal de burrice, já que crescer pode ser bem chato, mas enfim, a questão é que além de crianções, os xóvens dessa geração podem ser narcisistas ao extremo. Nada mais pertinente para quem cresceu só ouvindo que é o máximo e que deve ter tudo, tudo o que quiser.

E é aí que entra minha mais nova ocupação. Calhou de, entre minhas tarefas na editora, estar a de responder às mensagens enviadas para o SAC. Entre perguntas sobre livros esgotados, reedições, e pedidos de troca, eu recebo, montes, centenas, milhares de pedidos de…marcadores de livros. Sim, marcadores, aquele retângulo de papel impresso, muitas vezes colorido, com alguma referência aos livros.

Beleza, cada um coleciona o que quiser, mas eu não consigo deixar de me espantar com a argumentação: “Eu precisoooo de marcadores, não aguento mais marcar meus livros com pedaços de papel, que se perdem e a gente nunca sabe onde parou de ler”, roga Fulano, 25 anos. “Por favooooor, me mandem alguns marcadores, por caridade. Amo muito ler, amo marcadores, não posso mais viver sem eles”, clama Beltrana, 24 anos. Há também os que não pedem, exigem: “Eu preciso de marcadores, quero marcadores, vocês têm que me dar”, impõe Ciclano, 18 anos. “Olha, estou esperando vocês me enviarem marcadores, meu endereço é tal. Não demorem”, demanda Ciclaninha, 26 anos.

Claro que eu preciso parar tudo para separar marcadores – e também não vale qualquer um não, tem que ser aquele raro, difícil, daquele livro preferido – gastar uma grana com correio e satisfazer os desejos dos tais jovens da geração Y que precisam, necessitam, vão morrer se não receberem em seus endereços os cobiçados retângulos de papel. E não importa nada, nem o traço do sobrado, nem o disco de Paul Simon…

Não!

Exerço minha dose diária de sadismo – ou seria bom senso? – e digo que não, não enviamos marcadores, e mais não digo, e nem explico, porque aprendi com a minha mãe, com uns cinco anos de idade, que não é não, e não é todo não que exige explicação. Já que papai e mamãe não ensinaram, Tia Ana do SAC está aqui para, com toda a delicadeza de um serviço de atendimento ao consumidor – mostrar que a vida não é sempre como a gente quer.

 

 

 

 

Nunca ler os comentários

Na virada do ano, pela primeira vez em muito tempo, eu não fiz uma lista interminável de resoluções. Minhas objetivas, sucintas e aparentemente viáveis decisões para os dias vindouros foram:

1. Não procrastinar
2. Fazer uma coisa de cada vez
3. Nunca, jamais, em hipótese alguma, ler os comentários

Não é pouca coisa.

Não procrastinar significa levar uma vida totalmente diferente da que eu estava acostumada. É quase uma ressurreição em outro corpo, praticamente um tornar-se outra pessoa. Fazer uma coisa de cada vez exige planejamento e disciplina inflexíveis, o que agrada minha porção germânica, mas faz a parte hippie tremer de medo de uma extrema e ridícula burocratização da vida. E, apesar de tudo isso, não ler os comentários tem se provado a mais difícil de cumprir das três. Por que? Ora, fácil…porque a vontade de testar nossos limites de tolerância ao que há de pior na humanidade é o que nos move.

Tire essa característica do ser humano e estará banida imediatamente a fofoca, a futrica, a preocupação com a vida alheia, além de praticamente toda a programação da TV aberta.

Ainda assim, resisto como posso.

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Certa vez, eu estava em casa com meu pai em uma tarde de semana. Acho que estava de férias. Não me lembro bem das circunstâncias, mas meu pai devia estar doente para estar em casa em uma tarde de semana, já que ele nunca tirava férias. Pois bem, em determinado momento, a moça que estava lá para fazer a faxina veio se despedir. Meu pai resolveu acompanhá-la até a porta e ela ficou muito nervosa. Percebemos que ela estava escondendo alguma coisa, uma sacola grande. E sem que a gente tivesse de perguntar, ela começou a chorar e mostrou que estava tentando levar umas cortinhas velhas guardadas há anos num canto de armário, sem nos pedir.

Meu pai sentou e explicou para ela que não havia problema nenhum em levar as cortinas, e que ela poderia ter pedido. A moça não parava de chorar, implorando para que ele não chamasse a polícia. Meu pai disse que jamais faria isso, a acalmou e ela foi embora.

Do alto de meus sete anos, tremi de indignação: “Pai, ela estava roubando! Você tinha de ter chamado a polícia! Ela tinha de ir pra cadeia”. Ao que ele me explicou que não seria correto fazer isso, e me deu uma das primeiras lições – de uma série de muitas – com o intuito de desarmar aquela sanha por punição e pelo “fazer a coisa certa” a qualquer preço que toda criança nessa idade tem, sem considerar as inúmeras nuances da situação.

Deve ser difícil pra caramba ser pai nessas horas, vejam a delicadeza do momento. Ao mesmo tempo em que você precisa ensinar que roubar é errado, deve explicar o que está por trás da coisa toda. Lembro da paciência que ele teve em descrever o que teria acontecido com a vida daquela moça se tivéssemos chamado a polícia, e me perguntou se eu achava que o erro que ela tinha cometido – pegar algo nosso sem pedir – justificava ter sua vida destruída.

Começou ali a desconstruir meu prazer infantil, cultivado por brincadeiras e desenhos animados, em ver o malvadão, o ladrão, o erradão se ferrar a qualquer custo, sem um exame mais cuidadoso. Foi ali que eu comecei a aprender que do outro lado tem sempre um ser humano tão vulnerável a fazer cagadas e suscetível a corrupções quanto eu, e todo mundo que eu gostava. E que se eu não desejava punição exemplar para os meus – cujos erros eu tenderia a relativizar – também não poderia desejar para aquele ente desconhecido e desprovido da capacidade de me provocar empatia, também identificado como “o outro”.

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Tudo isso para dizer que quando vejo um adulto se regozijar e pedir a morte, a tortura e a prisão de quem quer que seja – não importa o que a figura tenha aprontado, é inevitável lembrar da pessoinha que eu era antes desse episódio. Simplesmente, não acho razoável que qualquer ser humano com um pouco de vivência – e o Brasil é especialista em nos propiciar esse tipo de vivência – queira punir exemplarmente – e com requintes de dor e crueldade – do deputado corrupto ao ladrão de galinha, do assaltante ao cara que maltrata um cachorro, do presidente da república a quem tirou uma selfie com um golfinho morto. Vejam, não se trata de não criticar ou deplorar qualquer um dos comportamentos acima, mas simplesmente “matar o fdp” com as próprias mãos ou com as próprias palavras, não só não vai resolver o problema, como demonstra nossa pior faceta – a de justiceiros – além de me parecer terrivelmente infantil.

Porque o que está por trás dessa fúria pelo que chamam de “justiça” é a noção completamente equivocada de que somos melhores, mais civilizados e imunes a qualquer comportamento reprovável e, portanto, jamais cometeríamos qualquer um desses crimes – e tantos outros. E, diante de nossa incontestável superioridade, estamos aptos a linchar – real ou virtualmente – quem quer que tenha optado por seguir o caminho oposto.

E, cara, vou dizer que não, não estamos. Porque as coisas são infinitamente mais complexas do que um raciocínio binário que só é aceitável em crianças pequenas.

Primeiro porque vivemos em uma sociedade extremamente violenta e desigual. E, segundo, porque por mais que a gente repita o mantra “roubar é errado” mentalmente, estamos constantemente transgredindo regras e praticando pequenos delitos e corrupçõezinhas que, claro, não fazem mal a ninguém e nada têm a ver com “aquele bando de marginal de Brasília que devia mais era morrer queimado agonizando pra ver o que é bom”. Bando de marginais eleitos por nós, os cidadãos de bem, é bom que se diga.

E já que não é sempre que temos a oportunidade de nos juntar a outras pessoas tão boas quanto nós para amarrar suposto ladrão ao poste e espancar, a caixa de comentários está ali para todos os outros momentos. Ao alcance dos dedos, para desovar todo o ódio, falta de alteridade, e a imaturidade de quem não teve a sorte de ter um pai como o meu, ou noção para aprender de outra forma que não, amigo, não é por aí.

Melhor evitar.

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Tudo isso tem se tornado ainda mais preocupante no momento em que muitos daqueles comentaristas de portal, que muita gente relativizava dizendo que só tinham coragem de dizer tais barbaridades por estarem protegidos pelo anonimato da internet, parecem ter pulado para fora da tela e tomado as ruas. E dá-lhe relato de gente que apanhou por vestir a cor errada no lugar errado ou se recusar a aderir às palavras de ordem da vez. Ou seja, determinadas cores e pensamentos entraram no balaio das coisas de bandido. E bandidos precisam, sempre, ser eliminados.

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Espero sinceramente que de 2016 para 2017 eu volte a prometer não tomar refrigerante, fazer exercícios ou ler vinte livros por mês. Na verdade, acho que ficarei feliz se tiver apenas de repetir a resolução de nunca, jamais, ler os comentários.

 

 

Farinha Láctea

Pego a lata de farinha láctea na prateleira do supermercado e vejo que o rótulo ostenta com indisfarçado orgulho: mesmo conteúdo desde 1867. Eu não a conheço a tanto tempo assim, mas me sinto reconfortada em saber que vou encontrar o mesmo conteúdo desde 1985.

Nos idos do pré, na escola, banana cortada em rodelas com farinha láctea era meu lanche preferido. Ainda mais porque era sempre acompanhada de suco de guaraná em pó. Eu era capaz de trocar o recreio para ficar repetindo infinitamente, mas a professora sempre me dispensava com gentileza: “Aninha, vamos, nós também precisamos descansar um pouco”. Não podiam me deixar sozinha na classe comendo até explodir.

Bons anos aqueles, em que era possível repetir 27 vezes o lanche sem medo de engordar ou sofrer bullying.

Acho que é isso que significa envelhecer. É quando dos alto dos seus 33 anos uma lata de farinha láctea suscita tantas e tão profundas reflexões. Avante então, brindar o recém adquirido saudosismo com um pouco de farinha láctea com banana no café da manhã, sem medo de engordar com suas parcas 30 calorias por colher, rasa, de sopa. Para o caixa com a latinha boa e velha latinha amarela.

E a vida o que é…

A vida, essa fanfarrona.

Costumo dizer ao meu marido que ele nasceu com “o bizarro” no corpo. Entende-se por isso que ele atrairá sempre, e em todo lugar, o que houver de mais estranho em termos de pessoas, situações, conversas e afins. Um exemplo? Ele é capaz de ser atacado no meio da rua por uma louca que tenta colocar em sua lapela inexistente uma flor de papel alumínio torcido. Ele é o cara que entra na garagem do prédio e é abordado por uma vizinha que nunca viu, e que gruda em seu braço para lhe dar detalhes de sua mais recente cirurgia de hemorroidas, munida de uma almofada com furo no meio, evidentemente.

O bizarro, pois.

Comigo, a vida costuma ser mais sofisticada. As situações inusitadas se apresentam de forma elaborada e se desenrolam ao longo de dias, meses, anos, com o intuito de, tal qual aquelas fábulas infantis que juramos nunca ler para nossos filhos – e lemos – me dar uma lição.

E ela me deu mais uma.

Pela manhã, fui ao banco e, para ajudar aquele pessoal necessitado da família Setubal, gastei meus últimos e únicos centavos recebidos como herança de minha avó pagando uma dívida contraída em 2014. Uma dívida que, após dois anos de pagamento de parcelas e quitações, estava exatamente igual à quantia que emprestei. Exatamente igual não, estou sendo injusta, ela era R$ 200,00 menor do que a quantia que peguei emprestado, DOIS ANOS DEPOIS, com pagamentos e aportes periódicos.

No fim da tarde, tive de pegar um táxi para sair do trabalho e levar meu cachorro ao veterinário. Pedi um pelo aplicativo e, vejam só a sutileza do negócio, o primeiro táxi que viria me buscar cancelou a corrida logo em seguida. O aplicativo então selecionou outro táxi e, pela telinha do celular, um rosto, e mais do que um rosto, um nome conhecido.

*Pausa para uma explicação necessária*

No primário, eu gostava de decorar os nomes e sobrenomes dos colegas da escola, de seus pais e irmãos. Até aí, normal, porque vejo que muitas crianças fazem isso. Acredito que a maioria das pessoas descarte com o tempo essas informações para capacitar o cérebro a receber outras, mas eu não. Meu HD está cheio desse tipo de coisa, além de letras de pagodes e sertanejos dos anos 90, atrapalhando tentativas de retenção de novos conteúdos.

Pois bem, o tal taxista era o pai de uma amiga de infância da escola, que eu vi pela última vez há muito tempo. Mas, lembro-me bem de que ele era fotógrafo.

Passei o trajeto inteiro me corroendo com a dúvida: devo – ou não – me identificar? Por um lado, a curiosidade em saber que  caminho o cara tinha trilhado até ali, o que tinha acontecido com a carreira de fotógrafo – ocupação que eu volta e meia cogito abraçar. Ao mesmo tempo, a preocupação em constrange-lo a ter de me dar algum tipo de explicação.

E mais: algum problema ou indignidade em se tornar taxista? Claro que não! Mas ao mesmo tempo em que achei meu espanto um sinal condenável de preconceito, simplesmente não consegui entender que alguém escolha – por vontade ou vocação – trocar um universo de lentes, câmeras e luzes pelo trânsito caótico de São Paulo, pela necessidade de se relacionar com sei lá quantas pessoas diferentes no mesmo dia, com o medo de assaltado ou ter o carro destruído por algum maluco que furou o sinal. Quantos clientes chatos, quantos calotes, quantos equipamentos parcelados em mil vezes, quantos sustos, quantas crises econômicas foram necessários para o cara tomar essa decisão? Ou ele simplesmente resolveu partir para alguma coisa nova?

Como não me identifiquei, restaram as conjecturas e o dever de observar na situação uma grande ironia – mais uma que a vida veio me jogar na cara. Tendo gasto meus últimos centavos guardados pagando uma dívida estúpida, contraída por irresponsabilidade e alimentada por um misto de descaso e negação, e tendo escolhido uma profissão precarizada e instável – tal qual a dele – foi impossível não me enxergar na situação. Partindo do princípio, claro, de que estar ali não tenha sido uma escolha.

E junto com isso, a eterna dúvida entre arriscar o que já não é lá muito seguro em busca de satisfação pessoal, sentido e todas aquelas coisas subjetivas que não pagam aluguel ou enchem carrinho de supermercado.

Resta agora saber o que fazer com isso.

 

 

 

 

 

 

 

Obrigada, Ginger

Eu sinto dor, morre o Eduardo Galeano, um pessoal sai à rua para pedir que se instaure um regime que proíbe que gente saia à rua para pedir o que quer que seja, eu sinto mais dor, sinto muita dor, cansaço e dor de sentir dor há sete meses ininterruptos. Pra completar, decido recorrer ao Dr. Google para assistir a um vídeo de cirurgia de hérnia de disco achando, provavelmente, que haveria de tirar dali alguma lição edificante.

“Era uma hérnia gigante”, diz o vídeo, tipo legenda de filme mudo. Deu pra notar. Belíssima ideia pra completar um dia de bosta.

E então, nesses dias em que é tanta dor junta e misturada que você pensa que não caberia ali mais nenhuma dorzinha, que o copo já está cheio, que você já pensou mais de mil vezes em todo o pacote de desgraças, impossibilidades e nãos que a vida resolveu te impor de uma vez, já se sentiu miserável, e depois culpada por ter se sentido miserável sem realmente o ser, e na sequência irritada por ser tão fraca, para logo após iniciar uma nova cadeia de vitimização que só há de se dissipar na fumaça de um cigarro, que acende uma nova chama de culpa, que só se apagará com um bom gole de coca, que só faz lembrar dos quilos extras, que você resolve, para dar aquela força, pensar que porra está fazendo da sua vida para, segundos depois concluir algo como: nada que preste, sirva ou interesse.

E enquanto todo esse melô da autocomiseração rola a mil, Ginger, 14 anos bem vividos, se sacode, espreguiça e adormece com a dignidade de quem apenas existe.

Mapas afetivos – uma homenagem

Hoje faz seis anos que o meu pai morreu.
Para quem nunca perdeu alguém tão próximo, pode parecer bastante tempo.
“Já deu para refazer a vida”.
É, de fato, deu.
Mas o tempo, ainda que ajude em algum sentido – e realmente o faz – também é vilão, pois funciona como um apagador progressivo de memórias.
Primeiro leva embora o cheiro da pessoa. Depois você passa a não saber direito o que ela pensaria de alguma coisa, ou falaria em determinado momento.
A dor física da perda recente se transforma em uma saudade para a vida.
E, por mais alegrias, desafios e surpresas que ela te traga, o buraco estará sempre ali.
Aí que dessa vez eu resolvi fazer uma coisa diferente para homenageá-lo, chorando muito pouco e aproveitando a cidade em que nascemos (eu e ele), e da qual tanto gostamos (nós).
Saí para fotografar alguns lugares em que costumávamos estar juntos, e que significam tanto para mim. Alguns são óbvios, como o Parque da Água Branca – onde milhares de pais e filhas se divertem todos os domingos – outros nem tanto.
A homenagem tem duplo sentido, já que também dividimos a paixão pela fotografia.
Meu pai me deu minha primeira câmera quando eu tinha sete anos (uma Kodak do Mickey), emprestou ou repassou outras tantas, e vibrou quando eu comecei a fotografar com uma Nikon FM 10 (manual, quando já havia tantas outras com mais recursos) que, claro, foi presente dele.
Viu minhas fotos com toda a paciência e amor que o caracterizavam.
O projeto “Mapas Afetivos”, que conheci alguns dias antes de escrever esse texto, deu o empurrãozinho que faltava para eu fazer algo que já queria há alguns anos.
Como eu não tenho religião, gosto de acreditar que meu pai está vivo dentro das pessoas que o conheceram, e principalmente dentro de mim.
Não só através dos grandes exemplos e valores, mas principalmente pelo ser humano incrível que foi no dia-a-dia, dando a mim e à minha mãe um amor sem limites, exagerado até para quem não o conhecia tão de perto.
Pelas piadas, risadas, brincadeiras, companheirismo, broncas, sensibilidade, e uma transparência e verdade comoventes, ausência de medo de demonstrar seus sentimentos e vulnerabilidades (artigo raro em homens – principalmente os da geração dele), de errar e pedir desculpas.
Pelas primeiras fraldas trocadas às xícaras de chá partilhadas nas últimas madrugadas de vida.
As fotos foram tiradas com uma Canon 5D Mark II, a única câmera que ele não me deu.

O pai
João Paulo Rocha de Assis Moura nasceu em 1944, em São Paulo.
Foi advogado, formado pela PUC-SP.
Morreu no dia 2 de março de 2009, de problemas cardíacos, e com uma ajudinha de médicos negligentes.
Era são-paulino.

A filha
Ana Maria Straube de Assis Moura nasceu em 1982, em São Paulo.
É jornalista, formada pela PUC-SP.
Vive com seu marido, quatro cachorros e um papagaio em Perdizes, bairro onde sempre morou.
É são-paulina.

Feira do Pacaembu
Meu pai adorava ir à feira do Pacaembu aos sábados de manhã, e me arrastava junto. Na época, eu não era muito fã do programa e ia mais para não decepcioná-lo e ganhar um pastel. Ele gostava de escolher as frutas e odiava escolher as verduras e legumes, só levava quando minha mãe pedia. Fazia sempre o mesmo percurso, comprando sempre nas mesmas barracas. Quando terminava, comprava um pastel de queijo para comermos antes do almoço, na barraca do Zé.
Hoje tenho a sensação de que a feira daqueles anos era maior, mas pode ser impressão de criança. Atualmente é o que mais gosto de fazer aos sábados de manhã.

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Parque da Água Branca
Íamos ao Parque da Água Branca aos domingos pela manhã. Meu pai tirou diversas fotos minhas lá. Era o parque mais próximo de casa, e tinha os bichos, que eu adorava. Lá levei uma bicada de ganso quando tentei dar pipoca para ele pela grade – meu pai bem que avisou. Fazíamos sempre o mesmo percurso – meu pai era um homem de hábitos consistentes. Também gostávamos de andar em um brinquedo de cisnes que rodavam em círculo. Eram quatro brancos e um preto. Eu só gostava de andar no preto e meu pai tinha que esperar até ele vagar. Às vezes faziam por lá umas feiras de filhotes, onde cada criança ganhava um pintinho no final. Meu pai sempre me deixava levar o pintinho para casa, mesmo sabendo que ele provavelmente morreria de frio durante a noite. Hoje vou ao Parque da Água Branca aos domingos, e gosto de refazer nosso percurso. Ainda bem que o tempo não passou com muita força por lá.

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Avícola

Por muito tempo meu pai não me deixava ter um cachorro, um dos meus grandes pedidos junto com um irmão ou irmã. Ele dizia que não rolava ter cachorro em apartamento – e hoje eu provo o contrário para mostrar que pai nem sempre está certo. Para aplacar a vontade de ter um cãozinho, criávamos uma infinidade de canários-belga em gaiolas. Os passarinhos eram quase uma entidade, e cuidar deles nos tomava bastante tempo aos fins de semana. Aos sábados, meu pai fazia a limpeza pesada, e eu era responsável por mantê-la durante a semana. Até hoje sonho que esqueci de cuidar dos passarinhos, o que demonstra que devo ter ficado levemente traumatizada. Na avícola da foto, na Rua Conselhero Brotero, comprávamos mistura de alpiste e vitamina, e também comedouros, bebedouros e plásticos de gaiola das mesmas cores. A avícola e o TOC persistiram.

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Paróquia São Domingos
Meu pai estudou na PUC entre os anos de 1964 a 1968. Fez parte de muita coisa bacana na Universidade, e também se organizou e militou no movimento estudantil da época contra a ditadura militar. Desde cedo meu pai me contou histórias do período que pude entender apenas um tempo depois. Uma delas foi a do incêndio criminoso do TUCA.
A Igreja São Domingos também tem relação com esta época. Meu pai fez parte da Juventude Universitária Católica junto com alguns frades da mesma ordem. Lá fiz primeira comunhão e participei do meu primeiro ato público, em memória aos 20 anos da morte de Frei Tito. De vez em quando passo lá, para sentir o cheiro das pedras da Igreja – que é o mesmo até hoje, e lembrar do jeito com que meu pai dizia as rezas, com uma entonação muito particular.

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