Minha não-entrevista com Chico Buarque

12 Mar

Prólogo

Toda vez que Chico Buarque sai em turnê algo semelhante acontece. Um assunto que estava lá, meio adormecido, mas pronto para ser sacado oportunamente em rodas de conversa, toma conta de tudo. Não é só na imprensa, mas na boca das pessoas, páginas do facebook, fotos instagram. Todo mundo só fala em Chico Buarque. Tá que o fato dele estar comprometido e cantando seu amor explicitamente em metade do disco novo dá uma leve desanimada no contingente feminino nada pequeno que levanta de forma recorrente o assunto. Mas, como para mim falar em Chico Buarque tem sido difícil nos últimos anos, parto para mais uma etapa de auto-expiação de culpa e queimação de filme pública que tem me ajudado a conviver com o fato de que arruinei – ou ajudei a arruinar – uma entrevista com Chico Buarque. Queria eu que este texto estivesse na linha do grande “Frank Sinatra está resfriado”, mas não Gay Talese, esta sua pupila chegou lá, e falhou.

Entrevistar Chico Buarque não é das coisas mais fáceis do mundo, em todos os sentidos, e isso é óbvio. A começar pelo fato de que ele não está entre as pautas obrigatórias de todo estudante de jornalismo recém ingresso na faculdade. Não sei quais elas são agora, mas há uns dez anos, você entrava no curso e pimba, ia entrevistar Lobão sobre sua pendenga com a indústria fonográfica. E na sequência, dá-lhe entrevistar Tom Zé sobre sua carreira pós-tropicalista ou sobre a Guerra do Iraque. E dispare o primeiro flash quem nunca foi – ou ao menos pensou em ir e desistiu porque é longe pra caramba – fazer um ensaio fotográfico com os índios de Parelheiros. Nada contra Lobão, Tom Zé ou os índios, mas temos de concordar que não são personagens lá muito difíceis de encontrar. Eu mesma entrevistei Lobão por telefone (e meu Deus, quanta paciência do cara em responder sempre as mesmas perguntas sobre a numeração dos discos e Caetano Veloso) e ousei um pouco ao entrevistar Alceu Valença, que na época era meu brother, o que tornou tudo mais fácil.

Mas, apesar de todas os boatos sobre negativas, todas as matérias sobre entrevistas não realizadas (me lembro agora de uma da TRIP, que tinha até flores na portaria do cara. Flores?) e todo o mistério envolvendo a figura, para mim foi relativamente fácil marcar a entrevista. Mandei um email, expliquei o assunto, o propósito do projeto que tocava com um amigo (que não era sobre ele, bom que se diga) e pouco tempo depois recebi a resposta. Ok, vamos marcar.

– Pausa para relato sobre o que impacto que receber um email de Chico Buarque causa na sua vida. –

Estava eu checando mensagens quando vejo na caixa de entrada um email de Francisco. Eu não conheço nenhum Francisco e estava tão certa de que não teria resposta que minha primeira reação foi praguejar contra aquele spam até que…“Mãããããeeee, o Chico respondeu”. E segue uma infinidade de gritos da mãe, da tia que estava em casa, olhar feio do namorado (diz o meu que todo homem é corno potencial de Chico Buarque) e uma súbita mudança de auto-status. Passei a me ver como uma pessoa que tinha efetivamente recebido um email de Chico Buarque. Isso vira quase um cartão de visitas do tipo “Oi, meu nome é Ana e recebi um email de Chico Buarque. Tá bom pra você?”.

E olha que nunca fui a maior fã de Chico Buarque. Ok, podem apedrejar!

Sempre adorei as músicas do Chico, mas ser a maior fã é coisa muito séria, exige dedicação. E conheço gente que é assim, se torna quase uma característica da personalidade. Minha mãe, por exemplo. Para ela existe a música brasileira e existe Chico Buarque a um quinquilhão de quilômetros de distância. Para ela existem os homens, os homens bonitos, e Chico Buarque. Os homens interessantes, e Chico Buarque. E conheço muita, muita gente que pensa da mesma forma. Para mim Chico nunca foi um cara bonito, alguém cobiçável no campo das ideias, um símbolo sexual. E mais, como minha mãe escuta incessantemente Chico Buarque desde que nasci, o que me fez ouví-lo mais do que todos os  discos da Xuxa juntos (valeu, mãe!) ou de qualquer outro artista, ele nunca foi uma descoberta.

Acho que dou mais valor à música que garimpei sozinha, que descobri sem ter sido apresentada, como é o caso do Clube da Esquina, que minha mãe odiava e meu pai gostava, mas não tinha em casa. Meus discos do Clube da Esquina e dessa fase do Milton são quase furados. Acho mais criativo, mais diferente, me toca mais fundo que Chico (pedras, por favor).

E Chico Buarque foi presença tão recorrente na minha casa que era quase um tio distante. Brincadeira, mas é fato que todo mundo está sempre tentando criar uma conexão com ele, tipo aquela teoria de que seis pessoas te separam de qualquer ser humano no mundo. Isso é engraçado, nunca vi gente medindo a quantos graus de distância está de Caetano, ou Gil, ou Gal. Mas Chico Buarque é comum. É um tal de “estudei com a sobrinha, meu tio conhece o primo, frequentei o mesmo colégio”.

Na minha casa essa conexão se dava de várias maneiras. Meu pai estudou com um dos irmãos dele na faculdade e frequentou sua casa na juventude, além de ter conhecido todo o elenco da primeira montagem de Morte e Vida Severina, no Tuca. Já minha mãe, e essa história sempre me pareceu um tanto bizarra, diz ter uma amiga que supostamente foi xavecada por Chico na adolescência, e que lhe deu um fora, o que demonstra a incapacidade da moça em tomar decisões.

Mas, mesmo não sendo a maior fã, antes que digam que ganha asas aquele que não quer voar, declaro que fiquei extremamente comovida com a possibilidade de entrevistá-lo. E que escrevi cuidadosamente cada email dessa negociação até marcar o grande dia, falei para todo mundo que tinha recebido essa dádiva da vida, e elenquei milhares de assuntos interessantes na cabeça para me convencer de que sim, eu tinha algum valor e não faria feio na hora H. Porque entrevistar Chico Buarque mexe com a sua auto-estima, nem sempre para melhor.

E eis que chega o grande dia. Vou ao Rio com minha mãe, que não perderia isso por nada e estava quase mais ansiosa que eu, e sigo para o local combinado, um restaurante no Leblon. Ela senta em uma mesa de canto (queria vê-lo entrar, isso sim é uma fã!), eu sento, chega meu parceiro de projeto, chega o jornalista que fez a ponte entre nós e enfim, chega o Chico.

Naquele momento fui tomada pelo pânico de ter descoberto minha inconsequência tarde demais, quando já não dava para voltar atrás. Todo o peso da figura de Chico Buarque se materializou em toneladas na minha frente. Eu só conseguia pensar na minha mãe espiando da mesa de canto, nos suspiros das amigas, nos relatos de quem não conseguiu, na inveja que despertei e claro, mais importante, em todo o peso do mito, de um artista que tem sido quase unanimidade por décadas, que tem encantado gerações (brega, mas verdadeiro) e tocado pessoas tão diferentes. Eu, Ana Maria Ninguém, estava ali, na frente de um cara que deixou marcas profundas na cultura do país e da América Latina, admirado pelas pessoas mais admiradas, um intelectual que reflete sobre as coisas do Brasil e do mundo, um erudito. Eu simplesmente não devia estar ali. Não tão tosca, tão mal preparada, tão sem entender o que aquilo significava, tão cega. E tenho certeza de que as mesmas coisas passaram pela cabeça do meu parceiro, que perdeu a naturalidade, se deixou levar pelo simulacro do momento, e não por ele em si.

Jornalisticamente, caímos em uma armadilha velha conhecida. Chico respondeu todas as nossas perguntas antes que fossem feitas. Ele sabia porque estava ali e o que deveria dizer, ou o que devíamos perguntar. Perdemos as rédeas da entrevista. Sobraram no roteiro as perguntas mais fracas, aquelas que não seriam feitas diretamente, ou as que seriam feitas após quebrado o gelo inicial. Nessas horas, a gente devia ter o direito de tirar do bolso um mini jornalista experiente, algo como um Grilo Falante, que nos diria como proceder. O pior é que a gente tinha ali, presenciando tudo, um grande jornalista. Mas faltou aquela pausa salvadora dos filmes do Woody Allen para que ele pudesse intervir. Assisti perplexa a tudo aquilo, desejando que terminasse logo e, quando terminou, alívio. E depois raiva, ódio, frustração, quase suicídio.

Contei essa história para todo mundo, procurei respostas, avaliei, queria entender o que aconteceu, identificar erros e quem sabe, algum acertinho ali escondido no meio de tantos equívocos. Nessas horas, acredito que só a ciência é capaz de nos salvar. E foi assim que, mais de um ano depois, tive coragem de ouvir a gravação para um trabalho do curso de letras. O objetivo era identificar, por meio do modo de falar, das expressões e interjeições, situações de conflito ou conciliação em entrevistas. Nada mais apropriado. Graças aos estudiosos do tema, descobri que nós estávamos hesitantes e inseguros (bingo!) e que o jornalista que nos acompanhou, apesar de amigo de longa data de Chico, também não estava à vontade (e quem estaria, vendo duas pessoas se ferrando na frente de um ídolo?). Descobri também que Chico “preservou sua face”, ou seja, manteve a distância que sua condição implica. Resolvido, a culpa foi dele! Posso ir sem traumas assistir ao show do Chico na semana que vem.

Epílogo

Essa noite sonhei com Chico Buarque. Sonhei que estava assistindo ao show que está em cartaz agora. O lugar não era nada parecido com o HSBC Music Hall, onde as apresentações rolam em São Paulo. Era pequeno, enfumaçado, confuso. No meio de uma música, dois caras começaram a falar alto, para atrapalhar. E o Chico ouviu. Todo mundo começou a se incomodar e, em determinado momento, eu me virei para os caras e gritei para eles ficarem quietos. Chico me olhou agradecido. Na sequência, como havia muitos lugares vazios, ele pediu para as pessoas chegarem mais perto do palco (só em sonho mesmo).  Logo depois ele cantou a Ciranda da Bailarina, mas como o público não sabia a letra, Chico começou a errar. Lá fui eu ensinar todo mundo a cantar a música direito, inclusive ele. E acabou. Freud explica. Acho que isso quer dizer que, de alguma forma, me sinto culpada pela péssima tarde que fiz o cara passar. Desperdicei seu tempo, o tal projeto nunca saiu. Fui tão longe para nada. E nesse sonho eu me redimi. Desculpa, Chico!

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Crise, realidade e ficção

8 Mar

A crise do sistema financeiro que balançou o mundo em 2008 é o mote do documentário Inside Job, ganhador do Oscar de 2011 na categoria, e da ficção Wall Street 2, Money Never Sleeps no original. Além de tratarem do mesmo assunto, ambos conseguiram, na minha opinião, escorregar nos mesmos estereótipos e valores carcomidos, apesar de serem tão diferentes. Explico:

Quando o diretor Charles Ferguson fez seu discurso de agradecimento pelo prêmio à academia, ressaltou que, até aquele momento, nenhum responsável pela bandalheira descrita no filme havia sido preso. De cara esperei o pior, afinal, realmente não entendo por que alguém haveria de ser preso por cumprir com os deveres de sua profissão. Não se trata de defender a financeirização predadora da econômia mundial, mas aquilo me pareceu um tanto ingênuo.

O documentário em si não é ruim, pelo contrário. Ele é ótimo para explicar as coisas para pessoas que, como eu, entendem muito na superfície questões ligadas à operações financeiras. O filme é MESMO para leigos e explica tintin por tintin, a ponto de eu conseguir sair dele e re-explicar tudo para a minha mãe, CDO, SWAPS e tudo o mais. Ao londo da narrativa, toda a filhadaputagem das fraudes, subprime, hipotecas podres e classificação triple A vai ficando tão clara que o público começa a se mexer na cadeira, xinga um cara do FED, defenestra outro CEO da Merryl Linch, e por aí vai.

Ponto extra para as pessoas que conduziram as entrevistas sem medo de fazer as perguntas mais impertinentes e constrangedoras do mundo para os Papas do sistema financeiro mundial. Nessas horas é que me sinto tão pouco jornalista, ou tão brasileiro-cordata, porque jamais conseguiria peitar o povo dessa forma. Aliás, acho que um filme como esses dificilmente seria feito no Brasil. Não consigo imaginar alguém chegando pra um senador da vida e perguntando se o partido comprou mesmo a aprovação de tal emenda. Ou consigo imaginar o filme censurado e o tal cara pedindo esmola na Central no dia seguinte. Acho que 1. No Brasil as pessoas envolvidas não topariam dar entrevista para esse tipo de filme; 2. Nossa natureza cordial não permitiria que esse tipo de pergunta fosse feita abertamente; 3. Caso os itens 1 e 2 não se cumprissem, os entrevistados saíriam da sala ou saíriam na mão com os entrevistadores; 4. Nós não temos essa cultura de apreço à liberdade de expressão e ao famoso “it´s a free country”. Só me incomodou um pouco o fato de que boa parte das perguntas mais cabeludas ficarem sem resposta, o que me fez pensar se elas realmente foram feitas, ou inseridas na edição. Mas acho que filme manipulado a esse ponto não ganharia Oscar…

Enfim, perguntas pertinentes, fontes que estiveram no olho do furacão, edição moderninha a lá The Corporation, boas imagens e eis que o filme escorrega no  velho dilema moral do qual os americanos parecem não conseguir fugir. Vai bem até quase o finalzinho, inclusive quando afirma que na campanha eleitoral, Obama prometeu acabar com a farra da desregularização do mercado financeiro e quando eleito, nomeia os mesmos CEOs de bancos e financeiras – professores de grandes universidades – homens públicos que já representavam seus interesses e suas companhias no governo Bush. É a clássica “se muda o motorista da kombi, mas não mudam os passageiros, fica tudo igual”. É um governo de Wall Street, diz alguém, para explicar a analogia com outras palavras. Perfeito. Até que resolve fazer juízo de valor sobre como os malvadões que arruinaram a econômia mundial gastaram perversamente suas fortunas com drogas, baladas, carros, prostitutas e iates. É a velha moral dividindo todo mundo entre bom e mau, e pregando que esses caras deviam todos é ir para a cadeia. Bem irritante, já que o filme passa duas horas batendo no sistema, na falta de regulamentação, no fato de que os pobres do mundo é que se ferraram no desemprego, na promiscuidade da relação entre mega empresas e universidades, nos interesses das companhias tomando o Estado…na boa, tudo isso para acabar pedindo as carecas de cinco pessoas? Não invalida o filme, mas dá vontade de ver como ele seria se tivesse sido feito no Canadá…

Destaque para a trilha sonora rock com  participação da incrível e desenterrada  New York Groove, do disco solo de Ace Frehley, eterno guitarrista bebum do Kiss, em seu melhor momento criativo. Ouça essa maravilha aqui.

Já Wall Street 2 começa com a libertação de Gordon Gekko, um mega operador da bolsa preso pelas barbaridades cometidas na crise anterior (um bode espiatório). O cara, interpretado por Michael Douglas “playing Michael Douglas”, sai do xadrez, escreve um livro questionando os limites da ganância, e sai por aí dando palestras concorridíssimas. Enquanto isso, o fofo operador da bolsa Jacob, cheio de sentimentos por seu chefe e namorado da filha de Gekko, que despreza o pai desde o suicídio do irmão, fica fascinado pela figura do sogrão e resolve ao mesmo tempo re-unir a família e vingar a morte do patrão, que se jogou embaixo de um trem quando outros financistas decidiram sacrificar sua empresa pelo bem das demais, lá no comecinho da crise.

Dito assim, o filme parece imprestável, mas não é. Até certo ponto ele faz um diálogo interessante com o documentário, pois dramatiza e aprofunda algumas situações reais descritas por Inside Job, principalmente no que tange a relação entre as empresas que ganharam zilhões nas falcatruas das hipotecas. De resto, ele determina desde o começo o lado bom da galera: o bem intencionado Jake, sua namorada ingênua Winnie, o chefe injustiçado Lou e o cientista maluco que descobre uma fonte de energia limpa e quer ser financiado, e o lado ruim: o ganancioso, manipulador e calculista Gekko, e os outros big bosses, que só pensam em ganhar dinheiro. Em determinado momento, a história cai naquela velha discussão se as pessoas “ruins” são capazes ou não de “se modificar”, fazendo você pensar que sim e que não (e não dá pra dizer mais nada sob pena de estragar a “surpresa”).

Enfim, Wall Street aqui é pano de fundo pra um filme de blablabla familiar. Como eu me recuso a acreditar que pessoas sejam só boas ou más e me irrito com esse tipo de polarização entre mocinhos e vilões que cairia melhor num desenho da Disney, me limito a dizer que esperava de Oliver Stone algo mais refinado. E dá-lhe inverossimilhança, por que o tal Jake, bobinho de tudo, não sobreviveria a uma semana numa escola de ensino fundamental do estado de SP, quanto mais em Wall Street. Pra dar uma ideia do que digo, coloco aqui a música docinha que embala o happy end e os créditos finais, a tão fofa quanto o casal, This Must be The Place (Naive Melody), do TalkingHeads. Derreta-se aqui.

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Aos 50 anos, a revolução é coisa natural, ninguém sentiu falta de festa

8 Mar
Turista que viajou dos mais diversos cantos do mundo para ver comemorações estrondosas ficou na mão. Quem aproveitou bastante foram as crianças, multidões delas brincando nas ruas no feriadão.
Por Ana Maria Straube, de Havana

O 1° de janeiro de 2009 amanheceu calmo em Havana. Cuba comemorava os 50 anos da revolução que pôs fim à ditadura de Fulgencio Batista e assumiu caráter socialista alguns anos depois. As bandeiras e cartazes, as fotos de Fidel e seus companheiros enfeitando casas, hotéis e edifícios, demonstravam a importância da data, mas contrastavam com os casais que passeavam pelo Malecón (avenida à beira-mar, um dos símbolos da cidade), as famílias esperando ônibus ou crianças brincando, como em qualquer feriado normal.
Turistas do mundo inteiro que vieram com intenção de acompanhar celebrações voltaram no mínimo intrigados. Apesar dos avisos do governo de que a data seria encarada com sobriedade, muitos esperavam que algo grande acontecesse. Talvez a expectativa, de certa forma exagerada, possa ser explicada pela falta de informações consistentes sobre a realidade da ilha. Afinal, além de especulações sobre a saúde de Fidel, o que mais se costuma publicar na grande imprensa?
MAIS FORTE QUE NUNCA

Cuba vive hoje uma de suas fases mais importantes e, ao mesmo tempo, complicadas, explica a guia Maribel, em português fluente, ao grupo de turistas recém-chegados. “Podemos dividir a história de Cuba em quatro fases, a primeira diz respeito ao domínio espanhol, quando a ilha não passava de uma colônia; a segunda, após as guerras de independência, marcou a submissão aos Estados Unidos; a terceira é a fase em que recebíamos ajuda financeira da União Soviética; e a quarta, a que estamos até hoje, é o momento em que, após a queda do regime socialista, Cuba passa a viver de seus próprios meios”, relata. “Atualmente a situação é crítica, devido ao embargo econômico imposto há 47 anos pelos Estados Unidos e por causa dos três furacões que nos atingiram em 2008 e arrasaram principalmente a porção noroeste do país.”
Essa pode ser uma pista para explicar a forma como o povo se portou diante da data histórica. O embaixador do Brasil, Bernardo Pericás, aponta outras, numa conversa informal, quando explica que os cubanos estão acostumados a atender chamados do governo para participar de manifestações de massa, e não a promovê-los espontaneamente. Segundo Pericás, o presidente Raúl Castro já havia declarado que não estavam programadas grandes comemorações, devido à situação econômica e à destruição causada pelos furacões. A partir disso, podemos fazer algumas especulações, como a diferença de estilo dos irmãos Castro – Raúl figura mais sóbria, a expectativa em relação à posse de Obama ou mesmo à preocupação com o avanço da crise mundial sobre Cuba. A certeza é que, por qualquer das razões acima, ou talvez por todas, não houve clima para grandes festividades.
A celebração oficial existiu, e contou com a participação de 3 mil convidados entre membros do Partido Comunista, representantes de países como Venezuela e Bolívia e heróis da revolução de 1959. Fechada ao público e transmitida pela tevê, a comemoração aconteceu em Santiago de Cuba, primeira cidade tomada por Fidel, símbolo da vitória dos revolucionários. No ponto mais alto de seu discurso na Praça Céspedes, Raúl declarou que hoje a revolução é mais forte que nunca, que jamais cedeu um milímetro em seus princípios, que foi feita por humildes para humildes. Fidel, que não apareceu, foi constantemente citado durante a fala, como ser humano imprescindível para influir no curso da história de maneira decisiva. O formato da festa deixou de fora o povo de Santiago e a grande quantidade de estrangeiros que esperava ver o presidente Raúl ao vivo.
VAGABUNDAR É CRIME

Enquanto isso, em Havana, o fotógrafo cubano Luciano Pinto, um negro cinquentão, nos pergunta se o Rio permanece sendo a capital cultural do Brasil, enquanto Brasília é a política e São Paulo a financeira. Atraído pela conversa em português, nos explica que foi alfabetizado pela revolução e hoje tira fotos sem máquina, ou seja, se oferece para bater fotografias para turistas por uma pequena gorjeta. É também jornalista e escritor e me dá seu cartão com um endereço eletrônico do gmail. Perguntado sobre a ausência de comemorações dos 50 anos, Luciano fala primeiro sobre o embargo e a crise econômica para logo depois declarar sua admiração e esperança com a posse de Barack Obama. Ele tem certeza de que o presidente americano fará algo para acabar – ou ao menos diminuir os efeitos do embargo dos Estados Unidos. Segundo ele, o momento é de expectativa e não de comemoração.

O embargo comercial, econômico e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos foi instituído em 1962, durante o governo Kennedy, e intensificado por Bill Clinton em 1999. Entre outras medidas, impede que empresas estadunidenses façam negócios com a ilha, limita – ou ameaça limitar – a atuação nos Estados Unidos de empresas presentes em Cuba e proíbe que o país use dólares em suas transações comerciais internacionais. Mesmo assim, há uma série de companhias multinacionais operando na ilha, principalmente canadenses, chinesas e européias, como a rede de hotéis espanhola Meliá. Empresários estadunidenses, cientes dos investimentos perdidos, têm feito pressão pela flexibilização das normas do bloqueio.

Atualmente, a economia de Cuba gira principalmente em torno do turismo, sendo que a produção de charutos, rum e café ocupam os lugares seguintes. Apesar de ter seu belíssimo litoral fechado pelo embargo ao turismo internacional de cruzeiros, a ilha recebe mais estrangeiros a cada ano, principalmente canadenses e europeus. A intensificação do turismo, por outro lado, tem gerado discussões. O “peso turístico” ou “conversível” (CUC) é utilizado somente pelos turistas para o pagamento de serviços como restaurantes, hotéis e táxis. Um CUC vale aproximadamente 0,80 centavos de dólar, o que corresponde a quase 25 pesos cubanos, moeda utilizada pela população para a compra de alimentos, transporte público e demais gastos. A discrepância de valores tem feito com que profissionais graduados como médicos e professores optem por trabalhar com turismo ao invés de se dedicar às suas profissões. Afinal, como os serviços pagos pelos estrangeiros em CUC, as gorjetas e gratificações são dadas na moeda “forte”.

Assim, um dos desafios do país é, nas palavras proferidas por Raúl em seu discurso em Santiago, “lidar com as reflexões sobre o futuro de Cuba e os próximos cinqüenta anos da revolução”.  Na prática isso significa, em tempos de crise, pensar formas de equilibrar os ganhos da população e evitar a consolidação de uma casta com poder de consumo muito superior ao da maioria. Hoje, muitos jovens optam por trabalhar com turismo ao invés de se dedicarem ao estudo, por exemplo. As atividades informais, como a venda de charutos falsificados a turistas durante a alta temporada, podem render dinheiro suficiente para sustentar meses de ócio – algo proibido por lei em Cuba – já que não existe desemprego, ficar sem trabalhar é considerado crime.

Mas, apesar das contradições, Cuba continua mantendo os melhores índices sociais da América Latina. Sua taxa de mortalidade infantil, por exemplo, foi reduzida à 4,7 entre mil nascidos vivos, mais baixa que a dos Estados Unidos e Canadá. A educação, gratuita em todos os níveis, continua levada a sério. “Se uma criança for vista nas ruas durante o período letivo, pode ter certeza de que seus pais terão problemas”, explica o taxista José Fernandez, para logo emendar “mas hoje as praças estão cheias delas, porque é feriado”. A quantidade de crianças brincando nas ruas de Havana chama mesmo a atenção. Elas circulam livremente, correm, jogam beisebol (esporte nacional) e bolinhas de gude por todo o lado, afinal não há violência urbana ou acidentes de trânsito (há pouquíssimos carros circulando).

O nível cultural dos cubanos também impressiona. Decidida a perguntar a todo mundo sobre a possibilidade de encontrar comemorações do cinqüentenário da revolução, acabei entrevistada por Aleida, motorista de um dos chamados “Coco Taxi” (triciclos motorizados, envoltos por uma capota de fibra em formato de coco, com capacidade para motorista e outras duas pessoas). Fã de novelas brasileiras, exibidas ininterruptamente em Cuba, ela me pergunta sobre a existência de disputas por terra entre famílias no Brasil. “Esta não é uma realidade comum em Cuba, por isso gostaria de saber se realmente isso existe no Brasil ou se é apenas ficção”, pergunta delicada, com medo de ofender, ao se referir ao conflito narrado pela novela Renascer, de Bendito Ruy Barbosa (exibida pela TV Globo em 1993). Aleida me explica que o clima do país não é mesmo para comemorações, pois além dos furacões, há o medo da crise econômica. “Em outros anos as pessoas fizeram mais festa, colocavam aparelhos de sons nas ruas para comemorar o ano-novo e o triunfo da revolução. Este ano isso não aconteceu”.

Talvez o que mais impressione em Cuba seja a naturalidade com que as pessoas encaram um modo de vida  tão distinto dos demais países da América Latina. Os cubanos simplesmente não falam o todo o tempo da revolução, a questão para eles já está naturalizada, o que não significa que seus princípios tenham arrefecido. Tatiana, funcionária do pequeno museu dos Comitês de Defesa da Revolução (CDR), percebe meu interesse e explica que o trabalho voluntário, um dos pilares da revolução, continua em pé. “Os estudantes passam parte do ano nas universidades e outra parte no campo, cortando cana ou ajudando em outras tarefas”, diz. “Precisam passar por essas etapas para aplicar seus conhecimentos e conhecer outras formas de trabalho, também muito importantes”. Nos primeiros anos da revolução, os CDRs tiveram um papel de denúncia de indivíduos e iniciativas consideradas contra-revolucionárias. Atualmente, organizam o atendimento médico nos bairros, ajudam famílias a resolverem problemas, aconselham jovens e zelam pela segurança e manutenção de suas regiões.

Uma grande festa encerra o dia 1° de janeiro na Tribuna Anti-imperialista. De frente para o mar, uma multidão de jovens chacoalha ao som de bandas que tocam pop latino. As bandeiras e o letreiro que diz “Todos pela revolução” não nos deixam esquecer que estamos em Cuba, apesar do bate-estaca comum a todas as rádios comerciais do continente. O clima não é ostensivo e as pessoas somente festejam a chegada de mais um ano que, apesar de surgir em meio a uma série de dificuldades, será mais uma vez encarado pelos cubanos com a palavra que me parece chave para definir a ilha: resistência.

Matéria publicada na edição de fevereiro de 2009 da revista Caros Amigos
Fotos de Cuba aqui em PB e aqui em cores!

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Para meu pai

2 Mar

Ele apareceu na escola no primeiro dia de aula e me encontrou perdida na secretaria, com um baita nó na garganta, procurando a sala de aula.
Ele me levava no parque e esperava com paciência o único cisne negro vagar, porque eu não queria andar nos brancos.
Inventava os melhores apelidos – Dadá, Dáda, Baixa, Ponte Preta, enquanto ele era o Dêda, Dedê, Bibo, Urso, Coelho ou Guarani – e as melhores brincadeiras: luta, mandru, sapo.
Vimos juntos as finais da Libertadores e dos mundiais de 92, 93 e 2005, as duas primeiras – confesso – vi mais preocupada em socorrê-lo de um possível infarte do que interessada no futebol.  Coincidência ou não, faz dois anos que o São Paulo não ganha nada.
Às vezes trocávamos. eu virava mãe e ele filho. Pra mim ele sempre foi frágil e eu tinha que protegê-lo.
Íamos à feira todo sábado de manhã e fazíamos o mesmo caminho. Primeiro a banana na barraca do japonês, depois o mamão,  as verduras, os ovos, e por último o pastel,  na barraca da moça  de olho verde com a menina mestiça. Íamos também à lavanderia, ao escritório, ao sapateiro, sempre na mesma ordem.
Me levou em T-O-D-A-S as feiras de filhotes, mesmo que eu saísse de T-O-D-A-S elas chorando, querendo um cachorro e carregando um pintinho que no dia seguinte seria um transtorno. E se preocupou em dar o melhor destino para cada pintinho de feira, cada canário, cachorro, pato ou galinha. Me levou em inúmeros fins de semana ao Butantã, porque o zoológico era muito longe.
Foi meu irmão para que eu me sentisse um pouquinho menos filha única.
Contou histórias engraçadas, deu os melhores foras, riu das minhas bobagens. Dançou para me alegrar e nunca fugiu de uma discussão, pois sabia que eu gosto de brigar.
Contou para todo mundo – orgulhoso – que eu fiz a marcha do MST e me trouxe um presentinho de cada viagem que fez, nem que ficasse fora apenas por algumas horas.
Foi militante e repetiu animado cada história do movimento estudantil milhões vezes. Comprou todos os livros que encontrou sobre a resistência à ditadura.
Dia desses apareceu num sonho, me dizendo que ia procurar o Che no céu e conversar com ele.
Me ensinou a conferir a conta, a não comer com os olhos e a não gastar compulsivamente.
Há dois anos, sua partida brusca, estúpida, inexplicável, deixou pra sempre um vazio impossível de preencher. O impediu de conhecer minha casa, de ver minha defesa de mestrado e meu segundo ingresso na faculdade. Privou meus futuros filhos do melhor avô que poderiam ter. E não pudemos procurar sua ficha do DOPS no Arquivo do Estado, voltar à Disney, vacinar as galinhas e ver Hércules 56.
Mas quando se despediu, meu pai escolheu me dizer o mais importante: que confiava em mim e que sabia que eu seguiria em frente. E eu segui, ainda que as palavrinhas do obituário que mandei para o Estadão nunca mais tenham saído da minha cabeça. Dois anos depois, elas me parecem tão adequadas: saudoso e inesquecível!

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