Prólogo
Toda vez que Chico Buarque sai em turnê algo semelhante acontece. Um assunto que estava lá, meio adormecido, mas pronto para ser sacado oportunamente em rodas de conversa, toma conta de tudo. Não é só na imprensa, mas na boca das pessoas, páginas do facebook, fotos instagram. Todo mundo só fala em Chico Buarque. Tá que o fato dele estar comprometido e cantando seu amor explicitamente em metade do disco novo dá uma leve desanimada no contingente feminino nada pequeno que levanta de forma recorrente o assunto. Mas, como para mim falar em Chico Buarque tem sido difícil nos últimos anos, parto para mais uma etapa de auto-expiação de culpa e queimação de filme pública que tem me ajudado a conviver com o fato de que arruinei – ou ajudei a arruinar – uma entrevista com Chico Buarque. Queria eu que este texto estivesse na linha do grande “Frank Sinatra está resfriado”, mas não Gay Talese, esta sua pupila chegou lá, e falhou.
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Entrevistar Chico Buarque não é das coisas mais fáceis do mundo, em todos os sentidos, e isso é óbvio. A começar pelo fato de que ele não está entre as pautas obrigatórias de todo estudante de jornalismo recém ingresso na faculdade. Não sei quais elas são agora, mas há uns dez anos, você entrava no curso e pimba, ia entrevistar Lobão sobre sua pendenga com a indústria fonográfica. E na sequência, dá-lhe entrevistar Tom Zé sobre sua carreira pós-tropicalista ou sobre a Guerra do Iraque. E dispare o primeiro flash quem nunca foi – ou ao menos pensou em ir e desistiu porque é longe pra caramba – fazer um ensaio fotográfico com os índios de Parelheiros. Nada contra Lobão, Tom Zé ou os índios, mas temos de concordar que não são personagens lá muito difíceis de encontrar. Eu mesma entrevistei Lobão por telefone (e meu Deus, quanta paciência do cara em responder sempre as mesmas perguntas sobre a numeração dos discos e Caetano Veloso) e ousei um pouco ao entrevistar Alceu Valença, que na época era meu brother, o que tornou tudo mais fácil.
Mas, apesar de todas os boatos sobre negativas, todas as matérias sobre entrevistas não realizadas (me lembro agora de uma da TRIP, que tinha até flores na portaria do cara. Flores?) e todo o mistério envolvendo a figura, para mim foi relativamente fácil marcar a entrevista. Mandei um email, expliquei o assunto, o propósito do projeto que tocava com um amigo (que não era sobre ele, bom que se diga) e pouco tempo depois recebi a resposta. Ok, vamos marcar.
– Pausa para relato sobre o que impacto que receber um email de Chico Buarque causa na sua vida. –
Estava eu checando mensagens quando vejo na caixa de entrada um email de Francisco. Eu não conheço nenhum Francisco e estava tão certa de que não teria resposta que minha primeira reação foi praguejar contra aquele spam até que…“Mãããããeeee, o Chico respondeu”. E segue uma infinidade de gritos da mãe, da tia que estava em casa, olhar feio do namorado (diz o meu que todo homem é corno potencial de Chico Buarque) e uma súbita mudança de auto-status. Passei a me ver como uma pessoa que tinha efetivamente recebido um email de Chico Buarque. Isso vira quase um cartão de visitas do tipo “Oi, meu nome é Ana e recebi um email de Chico Buarque. Tá bom pra você?”.
E olha que nunca fui a maior fã de Chico Buarque. Ok, podem apedrejar!
Sempre adorei as músicas do Chico, mas ser a maior fã é coisa muito séria, exige dedicação. E conheço gente que é assim, se torna quase uma característica da personalidade. Minha mãe, por exemplo. Para ela existe a música brasileira e existe Chico Buarque a um quinquilhão de quilômetros de distância. Para ela existem os homens, os homens bonitos, e Chico Buarque. Os homens interessantes, e Chico Buarque. E conheço muita, muita gente que pensa da mesma forma. Para mim Chico nunca foi um cara bonito, alguém cobiçável no campo das ideias, um símbolo sexual. E mais, como minha mãe escuta incessantemente Chico Buarque desde que nasci, o que me fez ouví-lo mais do que todos os discos da Xuxa juntos (valeu, mãe!) ou de qualquer outro artista, ele nunca foi uma descoberta.
Acho que dou mais valor à música que garimpei sozinha, que descobri sem ter sido apresentada, como é o caso do Clube da Esquina, que minha mãe odiava e meu pai gostava, mas não tinha em casa. Meus discos do Clube da Esquina e dessa fase do Milton são quase furados. Acho mais criativo, mais diferente, me toca mais fundo que Chico (pedras, por favor).
E Chico Buarque foi presença tão recorrente na minha casa que era quase um tio distante. Brincadeira, mas é fato que todo mundo está sempre tentando criar uma conexão com ele, tipo aquela teoria de que seis pessoas te separam de qualquer ser humano no mundo. Isso é engraçado, nunca vi gente medindo a quantos graus de distância está de Caetano, ou Gil, ou Gal. Mas Chico Buarque é comum. É um tal de “estudei com a sobrinha, meu tio conhece o primo, frequentei o mesmo colégio”.
Na minha casa essa conexão se dava de várias maneiras. Meu pai estudou com um dos irmãos dele na faculdade e frequentou sua casa na juventude, além de ter conhecido todo o elenco da primeira montagem de Morte e Vida Severina, no Tuca. Já minha mãe, e essa história sempre me pareceu um tanto bizarra, diz ter uma amiga que supostamente foi xavecada por Chico na adolescência, e que lhe deu um fora, o que demonstra a incapacidade da moça em tomar decisões.
Mas, mesmo não sendo a maior fã, antes que digam que ganha asas aquele que não quer voar, declaro que fiquei extremamente comovida com a possibilidade de entrevistá-lo. E que escrevi cuidadosamente cada email dessa negociação até marcar o grande dia, falei para todo mundo que tinha recebido essa dádiva da vida, e elenquei milhares de assuntos interessantes na cabeça para me convencer de que sim, eu tinha algum valor e não faria feio na hora H. Porque entrevistar Chico Buarque mexe com a sua auto-estima, nem sempre para melhor.
E eis que chega o grande dia. Vou ao Rio com minha mãe, que não perderia isso por nada e estava quase mais ansiosa que eu, e sigo para o local combinado, um restaurante no Leblon. Ela senta em uma mesa de canto (queria vê-lo entrar, isso sim é uma fã!), eu sento, chega meu parceiro de projeto, chega o jornalista que fez a ponte entre nós e enfim, chega o Chico.
Naquele momento fui tomada pelo pânico de ter descoberto minha inconsequência tarde demais, quando já não dava para voltar atrás. Todo o peso da figura de Chico Buarque se materializou em toneladas na minha frente. Eu só conseguia pensar na minha mãe espiando da mesa de canto, nos suspiros das amigas, nos relatos de quem não conseguiu, na inveja que despertei e claro, mais importante, em todo o peso do mito, de um artista que tem sido quase unanimidade por décadas, que tem encantado gerações (brega, mas verdadeiro) e tocado pessoas tão diferentes. Eu, Ana Maria Ninguém, estava ali, na frente de um cara que deixou marcas profundas na cultura do país e da América Latina, admirado pelas pessoas mais admiradas, um intelectual que reflete sobre as coisas do Brasil e do mundo, um erudito. Eu simplesmente não devia estar ali. Não tão tosca, tão mal preparada, tão sem entender o que aquilo significava, tão cega. E tenho certeza de que as mesmas coisas passaram pela cabeça do meu parceiro, que perdeu a naturalidade, se deixou levar pelo simulacro do momento, e não por ele em si.
Jornalisticamente, caímos em uma armadilha velha conhecida. Chico respondeu todas as nossas perguntas antes que fossem feitas. Ele sabia porque estava ali e o que deveria dizer, ou o que devíamos perguntar. Perdemos as rédeas da entrevista. Sobraram no roteiro as perguntas mais fracas, aquelas que não seriam feitas diretamente, ou as que seriam feitas após quebrado o gelo inicial. Nessas horas, a gente devia ter o direito de tirar do bolso um mini jornalista experiente, algo como um Grilo Falante, que nos diria como proceder. O pior é que a gente tinha ali, presenciando tudo, um grande jornalista. Mas faltou aquela pausa salvadora dos filmes do Woody Allen para que ele pudesse intervir. Assisti perplexa a tudo aquilo, desejando que terminasse logo e, quando terminou, alívio. E depois raiva, ódio, frustração, quase suicídio.
Contei essa história para todo mundo, procurei respostas, avaliei, queria entender o que aconteceu, identificar erros e quem sabe, algum acertinho ali escondido no meio de tantos equívocos. Nessas horas, acredito que só a ciência é capaz de nos salvar. E foi assim que, mais de um ano depois, tive coragem de ouvir a gravação para um trabalho do curso de letras. O objetivo era identificar, por meio do modo de falar, das expressões e interjeições, situações de conflito ou conciliação em entrevistas. Nada mais apropriado. Graças aos estudiosos do tema, descobri que nós estávamos hesitantes e inseguros (bingo!) e que o jornalista que nos acompanhou, apesar de amigo de longa data de Chico, também não estava à vontade (e quem estaria, vendo duas pessoas se ferrando na frente de um ídolo?). Descobri também que Chico “preservou sua face”, ou seja, manteve a distância que sua condição implica. Resolvido, a culpa foi dele! Posso ir sem traumas assistir ao show do Chico na semana que vem.
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Epílogo
Essa noite sonhei com Chico Buarque. Sonhei que estava assistindo ao show que está em cartaz agora. O lugar não era nada parecido com o HSBC Music Hall, onde as apresentações rolam em São Paulo. Era pequeno, enfumaçado, confuso. No meio de uma música, dois caras começaram a falar alto, para atrapalhar. E o Chico ouviu. Todo mundo começou a se incomodar e, em determinado momento, eu me virei para os caras e gritei para eles ficarem quietos. Chico me olhou agradecido. Na sequência, como havia muitos lugares vazios, ele pediu para as pessoas chegarem mais perto do palco (só em sonho mesmo). Logo depois ele cantou a Ciranda da Bailarina, mas como o público não sabia a letra, Chico começou a errar. Lá fui eu ensinar todo mundo a cantar a música direito, inclusive ele. E acabou. Freud explica. Acho que isso quer dizer que, de alguma forma, me sinto culpada pela péssima tarde que fiz o cara passar. Desperdicei seu tempo, o tal projeto nunca saiu. Fui tão longe para nada. E nesse sonho eu me redimi. Desculpa, Chico!
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